Pelo deserto, blue e a sarça

A vida passa diante dos seus olhos enquanto você está gargalhando. Por algum motivo, me recordei de dezembro de 2019, quando estava dentro de um ônibus com outras 20 pessoas que acabara de conhecer, indo para o desconhecido a procura de um lugar mítico. O lugar em questão era o Monte Santa Catarina, na Península do Sinai, Egito. Eu queria ver o lugar que a Bíblia diz que Moisés havia recebido os 10 mandamentos há milhares de anos atrás. Não sou religiosa, mas gosto de história e de estórias. Queria ver a sarça ardente, tomar chá de hibisco com os beduínos e respirar o ar rarefeito a dois mil metros de altura.

Enquanto eu estava no ônibus, olhando os meus recém-amigos dormindo, dando risada, comendo ou mexendo no celular, eu olhei para a janela. Estava escuro, mas era possível ver o deserto vermelho. A terra vermelha e seca. Aquele lugar representava tanta coisa. Tanta história, tanta luta, tantos valores. Nesse momento eu percebi que estava em um lugar que, durante toda a minha vida, eu tinha ouvido falar. Na escola, na aula de artes, no tutorial de maquiagem, na igreja, no noticiário da televisão. Eu estava pisando na terra vermelha que tantas pessoas diferentes ao longo da história havia pisado.

Isso é normal. Todo lugar que pisamos diariamente também foi pisado por diferentes pessoas por décadas e décadas. Mas ali era diferente, eu senti algo diferente. Havia uma magia, e o céu contava com tantas estrelas brilhantes naquela noite.

Talvez a minha percepção desse momento foi influenciada por estar ouvindo o álbum Blue, de Joni Mitchell naquela hora. Especificamente, “All I Want”. Esse álbum é o meu favorito da vida, sinto tantas coisas ouvindo ele, algo similar ao que senti naquele momento. Ainda, foi ali que ele se tornou o meu favorito, naquele momento eu senti uma conexão com toda a situação.

O êxtase de viver os nossos sonhos é algo indescritível. Naquela noite, paramos por alguns minutos em uma lanchonete e encontramos uma família de gatinhos cinza. Eram tão lindos e estavam morrendo de fome. Quis levá-los comigo. Logo depois, voltamos para o ônibus e passamos por um sistema de segurança. Dezenas de soldados com armas nas mãos estavam do lado de fora. Confesso que senti medo, apesar de não estar fazendo nada errado. Aquilo, de alguma forma, foi um choque no momento de êxtase que eu estava vivendo.

A próxima vez que saímos do ônibus foi para desbravar o monte. O famigerado Monte Sinai que todos ouvimos falar, mas poucos sabem onde realmente fica (e que realmente existe). Iniciamos a nossa escalada após passarmos por mais um sistema de segurança. Era quase madrugada e naquele lugar havia casas de moradores da região, e algumas crianças apareceram nos oferecendo itens para compra.

A subida foi horrível. A noite ainda estava linda, o céu foi o mais estrelado que eu já vi em toda a minha vida — o que foi enaltecido através das belas fotos que uma das colegas havia feito em seu novo iPhone. Andamos a madrugada inteira até o pico. Fazia muito frio e eu não estava tão preparada para aquele esforço. Felizmente recebi uma ajudas muito bem-vindas de algumas pessoas. Eu tinha que continuar a subir, mesmo ofegante e com fome (eu, por um descuido horroroso não havia jantado). Paramos em uma barraca para descansar e alugar alguns cobertores, que ajudaram com o frio. Bebi também um chocolate quente.

Continuamos o caminho até que foi possível ver o pico. Nos encontramos com outros grupos e quando finalmente chegamos, todos se aninharam um do lado do outro em um local. Durante o resto da madrugada, olhamos mais uma vez para o céu e teve quem jurasse ter visto uma nave espacial. Acredito que tenha sido apenas um avião.

A luz foi se revelando em uma cor alaranjada. A golden hour do amanhecer. O calor foi dando espaço para o frio, e os meus lábios antes endurecidos começaram a se desvencilhar um do outro. Eu não sabia o que dizer. Era lindo e eu não acreditava que tinha conseguido. Apesar de ter medo de altura, não estremeci em momento algum, mesmo ao ver o barranco que estava à frente de onde eu sentei. Tiramos fotos, eu aproveitei a luz para registrar alguns selfies. Era hora de descer.

Descer foi fácil na maior parte do caminho. Eu estava rápida e com calor, e o guia resolveu nos levar para uma descida alternativa para não dar de encontro com o “trânsito” de camelos que desciam pelo caminho comum. As pedras do caminho não me incomodavam mais, pensava que o mais difícil já tinha passado. E realmente tinha, mas o meu excesso de confiança me fez escorregar uma primeira vez, e isso me deixou paralisada pelo resto da descida. Fui ficando para trás e não consegui mas aproveitar a bela vista. Em um momento, escorreguei de maneira pior e só não caí em um buraco por causa de uma família russa que estava atrás de mim e me segurou. Engraçado que eu não havia percebido a presença deles até esse momento. Eles me acalmaram e me ajudaram a ajeitar o cadarço da minha bota. Eles não falavam inglês e eu não falava russo, mas nos entendemos.

Agradeci, e continuei descendo.

Chegamos no fim do caminho. Olhei pra cima e mais uma vez duvidei do que eu tinha feito durante aquela madrugada. Uau.

Fomos ao Mosteiro de Santa Catarina e a visita foi ótima. Um arbusto estava lá, dourado pela luz da manhã. O guia disse que aquela era a tal sarça. Era uma oliveira muito bonita.

Foi um dia memorável com certeza.

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Cientista política. Escrever é melhor que falar.

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